Os dois programas registrados no TSE, página por página, e o que cada campanha disse até 8 de outubro. Para quem tem até três apartamentos, o imposto da temporada em 2027 não muda com o resultado. O que muda é juro, câmbio e o que já tem data marcada.

A Dália Stays não apoia candidato nem partido. Este texto compara o que está escrito nos programas registrados no TSE, com página, e o que foi dito publicamente, com data e fonte, e faz a conta para o dono de imóvel. Na tabela, os candidatos aparecem na ordem da votação do primeiro turno (Flávio Bolsonaro 47,05%, Lula 45,14%, Agência Senado, 4/10); no texto, na ordem das perguntas que recebemos. Atualizado em 8 de outubro de 2026.

A pergunta chegou em versões diferentes desde o primeiro turno, em 4 de outubro: "se o Lula ganhar, o imposto do meu Airbnb sobe?", "se o Flávio ganhar, a reforma tributária acaba?". Fomos aos dois programas de governo depositados no TSE, 77 páginas do PL e 85 do PT, e às falas das duas campanhas. Para a pessoa física que não passa de três apartamentos nem de R$ 240 mil por ano de aluguel, o imposto da temporada em 2027 é o mesmo com qualquer um dos dois. Quem pôs os imóveis numa empresa, como na nossa reportagem sobre pessoa física ou jurídica, também paga a CBS em 2027, ganhe quem ganhar. O que muda está em outro lugar: na taxa de juros, no dólar e numa lista de coisas que já têm data e não passam pela urna.

Eleição 2026: o que já tem data e não depende do voto

Quatro regras já valem em 2027, tome posse quem tomar em 5 de janeiro.

A CBS começa em 1º de janeiro de 2027, quatro dias antes da posse. É o tributo federal que substitui PIS e Cofins na reforma do consumo (o IBS, a parte estadual e municipal que substitui ICMS e ISS, fica em 0,1% até 2028). A alíquota da CBS ainda não existe: a Receita mandou o cálculo ao TCU em 14 de setembro, o TCU devolve ao Senado até 30 de outubro, e o Senado fixa por resolução até 15 de dezembro. As estimativas públicas ficam entre 8,8% e 9,4%. Mudar isso depois exige lei complementar e resolução do Senado, com o imposto já em cobrança.

Quem paga CBS no aluguel por temporada é pouca gente. Pela Lei Complementar 214, a pessoa física só vira contribuinte se, no ano anterior, tiver mais de três imóveis alugados e receita de aluguel acima de R$ 240 mil, ou se passar de R$ 288 mil no ano em curso. Quem está abaixo continua só no carnê-leão, o imposto de renda mensal que a pessoa física já recolhe sobre o aluguel. Quem está acima paga como hotelaria: locação de até 90 dias tem redução de 40% na alíquota, e não de 70% como o aluguel comum.

A isenção de R$ 5 mil no imposto de renda já vale desde janeiro de 2026 (Lei 15.270) e aparece pela primeira vez na declaração de 2027. Vale para a renda mensal inteira, aluguel incluído. A mesma lei pôs 10% na fonte sobre dividendos acima de R$ 50 mil por mês e criou o imposto mínimo para quem ganha mais de R$ 600 mil por ano.

O ITCMD, imposto sobre herança e doação, fica progressivo pela Lei Complementar 227, de janeiro de 2026. A tabela é decidida pela assembleia de cada estado. São Paulo (4%), Minas (5%) e Paraná (4%) ainda têm alíquota fixa; lei estadual aprovada em 2026 só vale, no mínimo, a partir de 1º de janeiro de 2027.

Imposto de renda, reforma tributária e imóveis: o que cada programa diz

Abaixo, o que está escrito nos dois PDFs sobre o que toca o dono de imóvel, com a página, e o que não está.

TemaFlávio Bolsonaro (PL), programa de 77 p.Lula (PT), programa de 85 p.
Imposto de rendaO PDF não trata de imposto de renda nem de dividendos. Promete revisar "a majoração de impostos efetuada pelo atual governo" (p. 30), sem dizer quais."Isentamos de imposto de renda todos os que ganham até R$ 5.000" (p. 19); "colocar o pobre no orçamento e o rico no Imposto de Renda" (p. 10); "justiça tributária" e "combate aos privilégios" (p. 49), sem dizer quais. Sem proposta nova de alíquota.
Reforma tributária"Vamos promover a revisão e o redimensionamento da reforma tributária em curso" e "reduzir o IVA, hoje projetado num dos patamares mais altos do mundo" (p. 30); "redução das exceções"; reduzir impostos sobre energia e combustíveis (p. 31). Sem alíquota-alvo no PDF."Aprovamos a histórica reforma tributária do consumo" (p. 11); cesta básica isenta e cashback para os mais pobres (p. 11). Sem menção a alíquota ou revisão.
Imóveis e habitação"Retomar o Casa Verde e Amarela, com meta de 2,5 milhões de residências" (p. 47).Minha Casa Minha Vida "mantido e ampliado no próximo mandato, para todas as faixas de renda" (p. 45).
Aluguel por temporada, ITCMD, IPTUNada.Nada.
Turismo"Turismo: uma vocação que rende" (p. 59); promoção do destino Brasil; Trem do Nordeste (p. 60)."Avançaremos na promoção internacional do Brasil" (p. 57); parques nacionais e turismo sustentável (p. 71).
Juros e contas públicas"Juros menores não se decretam" (p. 32); "reformulação nas atuais regras fiscais", "entregando superávits primários" (p. 71); corte de no mínimo 10 ministérios (p. 69). Sem dizer quanto."Manteremos o novo arcabouço fiscal" e "vamos criar as condições para uma redução sustentada das taxas de juros" (p. 49). Sem dizer como.

Fora do papel, o ponto que mais mexe com o dono de imóvel é a reforma. Em 20 de maio, a equipe de pré-campanha de Flávio falou em suspender a reforma por um ano, por emenda constitucional, e levar o IVA, a soma da CBS com o IBS, "para 19% ou até menos" (CNN Brasil). Em 9 de junho ele disse: "Vamos suspender a entrada em vigor dela por, pelo menos, um ano" (Jornal de Brasília e CNN). Em 19 de agosto, a coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, descartou congelar: "o objetivo não é congelar e sim aprimorar essa reforma" (reformatributaria.com, 26/8). Em 6 de outubro ela defendeu acabar com o split payment, o mecanismo que retém o imposto na hora do pagamento (O Tempo, 7/10), e em 7 de outubro Flávio disse que "o ponto principal que a gente tem que discutir é o valor do IVA, 28%" (DGABC). Do lado do governo, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, já havia dito em 2 de julho, sobre adiar a reforma: "Ajustes de prazo de implementação da reforma, não" (SBT); em 7 de outubro respondeu que ser contra o split payment "é favorecer quem frauda". O programa registrado de Flávio não repete a suspensão; nenhum dos dois lados publicou alíquota nem calendário.

Sobre aluguel por temporada, Airbnb, regulação de plataformas, ITCMD ou IPTU, os dois programas não dizem uma palavra. O que existe de genérico é a frase do PL sobre revisar "a majoração de impostos" e a do PT sobre "justiça tributária". Quem escrever "se X ganhar, o seu Airbnb vai pagar mais" está interpretando.

Se o Lula ganhar, se o Flávio ganhar: a conta no seu bolso

Imposto da temporada. Pessoa física que não passa de três apartamentos nem de R$ 240 mil por ano não é contribuinte de CBS nem de IBS em 2027, com qualquer um dos dois. A lei está sancionada, o prazo é anterior à posse, e nenhum dos dois propõe mudar essa regra. Com mais de três imóveis e acima do limite (ou com os imóveis numa empresa), a CBS de 2027 fica entre 5,3% e 5,6% da receita (alíquota estimada de 8,8% a 9,4%, com a redução de 40% da hotelaria), mais 0,1% de IBS. Para uma carteira de cinco apartamentos como o de Copacabana das reportagens anteriores, R$ 600 mil por ano, são R$ 32 mil a R$ 34 mil em 2027, nos dois cenários.

A diferença entre os candidatos, se houver, só apareceria em 2033, na alíquota cheia, e nenhum dos dois pôs número no programa: os 28% são a estimativa oficial com a lei de hoje, não proposta do PT; os 20% abaixo são hipótese nossa a partir do "19% ou até menos" de maio e do "em torno de 20%" que Flávio citou em agosto, números que não estão no PDF registrado. Com a estimativa de 27,91% do Comitê Gestor do IBS, feita para fins de orçamento e arredondada aqui para 28% (a lei tem um teto de referência de 26,5%: acima dele, o Executivo é obrigado a propor corte de exceções), a hotelaria paga 16,8% (R$ 101 mil na mesma carteira). Se a revisão que a campanha de Flávio defende levasse o IVA a 20%, seriam 12% (R$ 72 mil). Como toda promessa dos dois programas nesta área, depende do Congresso: cortar exceções e baixar a alíquota é lei complementar e resolução do Senado; suspender a reforma é emenda constitucional.

Juros. É aqui que a eleição pesa, para os dois lados do seu balanço. A Selic está em 13,75% e a próxima reunião do Copom, que decide a Selic, é em 3 e 4 de novembro. Em 5 de outubro, dia seguinte ao primeiro turno, o mercado se moveu: a taxa de juro que ele espera para janeiro de 2029 chegou a cair quase 1 ponto na abertura, e os fundos imobiliários subiram 3,6% em dois dias.

As casas que publicaram cenário não nomeiam candidato; a associação a um ou a outro é leitura do mercado. O Morgan Stanley traça três: com ajuste fiscal, Selic em 9,75% e dólar a R$ 4,50; no cenário intermediário, 11% e R$ 5,25; sem ajuste, 15,5% e R$ 6,00. O JPMorgan, segundo o Investidor10, vê dólar perto de R$ 4,90 se vencer um candidato comprometido com reformas fiscais e até R$ 5,50 com a continuidade da política fiscal atual. São apostas; e o histórico recente não obedece à urna: entre 2023 e 2025, com o mesmo governo, a Selic caiu de 13,75% para 10,5% (agosto de 2023 a maio de 2024), voltou a subir a partir de setembro de 2024 e chegou a 15% em junho de 2025.

Para quem tem apartamento na temporada, juro menor mexe em três lugares. O CDI, a referência da renda fixa, rende menos: hoje são 13,65% ao ano, uns 11,6% depois do imposto; a 9,75% de Selic seriam uns 8,3%. O imóvel compete melhor com a renda fixa, e o preço dele tende a subir, como os fundos imobiliários mostraram em 5 e 6 de outubro. E financiar fica mais barato para quem pensa em comprar o segundo. Com Selic a 15,5%, o contrário nos três. Pela nossa conta da primeira reportagem, o apartamento de Copacabana de R$ 1 milhão rende de R$ 39 mil a R$ 65 mil líquidos por ano na temporada, 3,9% a 6,5%: nesse exemplo, em nenhum cenário de Selic ele ganha do CDI só pelo aluguel que entra; um apartamento de R$ 500 mil com a mesma receita rende 7,8% a 13%: na ponta de baixo perde do CDI de hoje, e empata ou ganha com a Selic em 9,75%. Fora do aluguel, o imóvel se paga pela valorização e pelo uso.

Dólar. O hóspede estrangeiro paga em reais e vê o preço em dólar. A diária de R$ 800 custa US$ 160 a R$ 5,00, US$ 163 a R$ 4,90 e US$ 145 a R$ 5,50: 12% de diferença entre os dois cenários do JPMorgan. O Brasil recebeu 9,3 milhões de turistas estrangeiros em 2025, recorde, com US$ 7,9 bilhões de gasto, e a Embratur projeta 10 milhões em 2026. Quanto disso chega ao seu anúncio depende da cidade: Rio e Florianópolis sentem; o interior paulista, não. Real forte encarece o Brasil para quem vem de fora e barateia a viagem do brasileiro para fora: pesa nas duas pontas da sua ocupação.

Herança, IPTU e condomínio. A tabela da herança, o IPTU e a briga do condomínio não passam pelo presidente. O ITCMD é da assembleia do seu estado. O IPTU é da prefeitura, que desde a Emenda 132 pode atualizar a base de cálculo por decreto, se a lei municipal autorizar. E a briga do Airbnb em condomínio é do STJ. Em 17 de setembro o tribunal divulgou a suspensão, em todo o país, dos processos que discutem se a cláusula de uso residencial basta para barrar a temporada ou se é preciso proibição expressa, até julgar o Tema 1.443, ainda sem data. Em maio, a 2ª Seção havia decidido que a liberação exige dois terços dos condôminos. Se você pensa em doar o apartamento aos filhos antes da tabela progressiva, o prazo que importa é o da assembleia do seu estado.

O que fazer até 25 de outubro, e o que fazer até 31 de dezembro

Até a eleição: nada que dependa do resultado. O erro mais caro desta quinzena é vender, comprar ou doar imóvel por aposta eleitoral. As duas coisas que vale fazer agora não têm candidato: ajustar o preço do Airbnb pela taxa única de 16% que a plataforma passou a descontar do anfitrião em setembro (a conta está na terceira reportagem da série) e abrir o calendário para Réveillon e Carnaval, que é quando a reserva de alta temporada entra.

Até o fim do ano:

  1. Some a receita de aluguel de 2026 e conte os imóveis. Mais de três e mais de R$ 240 mil: você entra na CBS em 2027, qualquer que seja o presidente. Leve ao contador em dezembro, depois que o Senado fixar a alíquota.
  2. ITCMD: se há doação planejada em São Paulo, Minas ou Paraná, veja o andamento na assembleia do estado. Lei aprovada em 2026 só vale em 2027; doação feita em 2026 segue a tabela de hoje.
  3. Declaração de 2027: guarde o carnê-leão de 2026 mês a mês. É a primeira declaração com a isenção de R$ 5 mil e, para quem tem empresa, com a tributação nova dos dividendos.

Para ver quanto o seu bairro rende hoje, antes de qualquer cenário, a calculadora da Dália devolve a estimativa já sem a taxa da plataforma.

O que pode mudar este texto

  • 15 e 16 de outubro: entrevistas de Lula e de Flávio na Globo. Nova fala sobre IVA ou isenção entra no parágrafo "Fora do papel".
  • 25 de outubro: segundo turno. O título passa a "O que o resultado da eleição muda no seu Airbnb".
  • 30 de outubro: TCU devolve o cálculo da CBS ao Senado. A faixa de 8,8% a 9,4% vira um número.
  • 3 e 4 de novembro: Copom. A Selic de 13,75% pode mudar.
  • 15 de dezembro: Senado fixa a alíquota da CBS. A conta da carteira de cinco apartamentos é refeita.

Perguntas frequentes

Se o Lula ganhar, o imposto do Airbnb sobe?

Não há proposta no programa dele sobre aluguel por temporada ou sobre o carnê-leão; há a frase genérica sobre "justiça tributária". A reforma do consumo segue o calendário já em lei, que só alcança a pessoa física com mais de três imóveis e mais de R$ 240 mil por ano.

Se o Flávio ganhar, a reforma tributária acaba?

O programa fala em "revisão e redimensionamento" e em reduzir o IVA, sem alíquota. A CBS começa em 1º de janeiro de 2027, antes da posse; mudar exige o Congresso. A coordenadora econômica da campanha descartou congelar a reforma.

A isenção de R$ 5 mil continua com qualquer um dos dois?

Sim. Está em lei desde 2026, Lula a defende no programa; Flávio disse que mantém (fórum Rumos do Brasil, 15/6/2026) e votou a favor no Senado.

Vou pagar IBS e CBS no meu Airbnb em 2027?

Só se tiver mais de três imóveis alugados e mais de R$ 240 mil de receita no ano anterior (ou passar de R$ 288 mil em 2027), ou se os imóveis estiverem numa empresa. Abaixo disso, na pessoa física, continua só o carnê-leão.

Juro caindo é bom para quem aluga por temporada?

Sim: o CDI rende menos, o preço do imóvel tende a subir e financiar o próximo fica mais barato. A conta contra o CDI está na seção de juros.

A Dália Stays não apoia candidato nem partido. Fontes: TSE, DivulgaCandContas, programas de governo (Flávio Bolsonaro, doc. 280017104726; Lula, doc. 280017016005), lidos em 8/10/2026; Agência Senado, 4/10/2026 (resultado do 1º turno) e 5/11/2025 (votação da Lei 15.270); Lei 15.270/2025; LC 214/2025, arts. 251, 253, 261 e 281; LC 227/2026; Comitê Gestor do IBS, Resolução 14/2026 (estimativa de 27,91%); STJ, REsp 2.121.055 (5/2026) e Tema 1.443 (17/9/2026); CNN Brasil (20/5/2026), Jornal de Brasília (9/6/2026), reformatributaria.com (26/8/2026), O Tempo (7/10/2026), DGABC (7/10/2026), SBT News (2/7/2026), Folha PE (15/6/2026); Money Times e CNN Brasil (5 a 8/10/2026, juros); FundsExplorer (6/10/2026, IFIX); Morgan Stanley via TradeMap e Seu Dinheiro; JPMorgan via Investidor10 (30/9/2026); Embratur (26/1/2026 e 7/2026); Receita Federal, ofício ao TCU (14/9/2026) e estimativas de SERT e ROIT (9/2026). Receita de Copacabana pela base de mercado da Dália.